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Estudos estão no estágio dos experimentos com animais e de alguns ensaios clínicos.

No ano em que completa dois séculos, o monstro da literatura de horror criado pelo doutor Victor Frankenstein e pela imaginação da escritora britânica Mary Shelley está prestes a se tornar realidade para salvar vidas – e não para destruí-las, como no livro.

Se a ciência continuar evoluindo no ritmo atual, não será mais preciso utilizar pedaços de cadáveres para recompor corpos avariados por enfermidades e traumas. A engenharia de tecidos e a medicina regenerativa avançam no sentido de restaurar órgãos danificados, ou mesmo de substituí-los, sem os riscos da rejeição.

Em que estágio estamos neste projeto de recriar a vida a partir de células-tronco e biomateriais para regenerar corpos lesados ou fazer transplantes sem a necessidade de um doador? A resposta mais honesta que um cientista pode dar é a de que estamos no estágio dos experimentos com animais e de alguns ensaios clínicos.

Os doentes têm pressa, mas novos remédios e tratamentos necessitam passar pela pesquisa e testes clínicos, antes do uso humano.

Não há dúvida de que é um caminho sem volta ao passado, estamos às portas de uma nova era da medicina. Há avanços notáveis e visíveis resultantes da conjugação entre tecnologia e biologia, como a impressão 3D de partes do corpo, como músculos, cartilagens e ossos, a biofabricação de tecidos, o uso de biomateriais para implantes e próteses, a terapia celular, a difusão da nanotecnologia e de outras técnicas que trazem resultados práticos exitosos.

Especialistas vêm se debruçando sobre estudos que apontam para a reconstrução do corpo humano.

Como cientista e professora, digo para meus alunos que não há limite para a ciência, nem para a imaginação. Não estou me referindo a limites éticos, evidente.

Tenho me empenhado, como pesquisadora de células-tronco, no combate às terapias milagrosas e ao charlatanismo, pois lidamos com uma população suscetível a promessas de soluções mágicas. Os pacientes precisam distinguir estudo de tratamento e saber que os trabalhos não são feitos por indivíduos isolados, mas por organizações reconhecidas.

A informação é a melhor vacina para o embuste. Os cientistas sérios mantêm conexão para a troca de informações e participam de encontros destinados à difusão de novos conhecimentos, como ocorreu há cerca de quatro meses, em Porto Alegre, no encontro “TERMIS Americas Workshop 2018”.

A proposta do evento, desta sociedade científica internacional, que esteve reunida na América Latina pela primeira vez, foi debater os desafios e benefícios terapêuticos na aplicação de tecnologias que envolvem engenharia de tecidos e a medicina generativa.

De um encontro de escritores na Suíça, nasceu o romance referido no início deste artigo, que antecipa, como ficção, o primeiro transplante múltiplo de órgãos da história. Duzentos anos depois, cientistas de todo o mundo aceitaram o desafio de reconstruir o ser humano – para salvar e qualificar vidas.

Patricia Pranke é cientista e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 

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