O gliobastoma multiforme permanece como o tipo de câncer mais comum e letal no cérebro e é conhecido pela sua capacidade de recidiva. Estudos de pesquisadores da Universidade do Texas, do Centro de Câncer Anderson MD estão fazendo progresso na compreensão dos mecanismosda doença e encontrando novas formas de lidar com a mesma.
Primeiramente, um estudo conduzido pela equipe liderada por Baoli Hu, Ph.D., pesquisador cientista, identificou um caminho pelo qual as células cancerosas progressivamente se espalham e crescem no cérebro, abrindo novas possibilidades de tratamento.
“O mau prognóstico de gliobastoma refere-se à recorrência quase universal de tumores, apesar do forte tratamento, incluindo cirurgia,radioterapia e quimioterapia”, afirmou Dr. Hu. “Nosso estudo mostra o potencial para uma nova estratégia terapêutica, baseada em mecanismos que permitem o glioma regredir progressivamente, no cérebro”.
O Dr. Hu e seus colegas desenvolveram um modelo de glioblastoma que permitiu localizar as células-tronco de glioma que, assim como toda célula-tronco, têm a habilidade de se tornar outros tipos de células. Os pesquisadores também descobriram que a ativação do gene WNT5A permitiu às células-tronco do glioma transitarem, levando a um crescimento do tumor invasivo.
“Descobrimos um processo pelo qual as células-tronco do glioma mediadas pelo gene WNT5A se tornam células do tipo endotelial”, disse o Dr. Hu. “Essas novas células, conhecidas como GdECs, recrutam células endoteliais existentes para formar um nicho de apoio ao crescimento de células de glioma invasivo, longe do tumor primário e, muitas vezes, levando a “lesões satéltes” e à recorrência da doença.
Os dados clínicos revelaram uma maior expressão do gene WNT5A e das células GdECs nas lesões satélites e em tumores recorrentes do que em tumores primários, firmando o laço entre células de glioma mediadas por WNT5A e focos de glioma espalhados por todo o cérebro.
O estudo estabeleceu que o gene WNT5A é um fator chave para a transição das células-tronco de glioma e as células endoteliais GdECs. A equipe acredita que isso abre a possibilidade para uma nova estratégia de terapia para pacientes com gliobastoma.
Um dado clínico recente mostra que o medicamento aprovado pela FDA, Bevacizumab, não beneficiou pacientes com glioblastoma. Com essa nova informação, a equipe do estudo propõe uma abordagem terapêutica adicional para o glioblastoma recorrente visando as vias de sinalização WNT5A e VEGF. “Nossos dados preliminares mostram que o Bevacizumab pode aumentar a diferenciação de células mediada por WNT5A e recrutar células endoteliais existentes, não trazendo benefícios comprovados para pacientes com glioblastoma”. O Dr. Hu disse que “essa nova estratégia melhoraria o resultado de pacientes com câncer no cérebro submetidos a terapias com VEGF, limitando o crescimento, a invasão dos tumores e a recorrência da doença “.
A eliminação do gene permite a migração das células cancerosas para desenvolver-se
Um segundo estudo, conduzido pelo Dr. Jian Hu, professor assistente de biologia do câncer, examinou como as células do câncer desenvolvem-se quando migram para locais inóspitos dentro do cérebro.
As descobertas conduzidas pela equipe acreditam que a sobrevivência das células possa estar relacionada à deficiência de um gene supressor do tumor chamado Quaking (QKI), um alvo potencial para terapias. “As células-tronco do câncer requerem ‘nichos’ para permanecerem em boas condições, mas é pouco claro como elas sobrevivem em um ambiente fora desses nichos, bem como dentro dos mesmos tecidos ou durante a invasão a outros órgãos”, explicou Jian Hu. “Nós descobrimos que o gene QKI é o maior regulador dessas células-tronco do câncer egliobastoma, o tipo mais fatal de tumor no cérebro.
“Há evidências de que algumas células do câncer no cérebro, chamadas células-tronco de glioma, estão surgindo e possuem uma habilidade inesgotável de se regenerarem e produzirem tumores que assemelham-se às características dos tumores originais”, acrescentou.
A autorrenovação é uma característica única das células-tronco que criam células-tronco “filhas” idênticas. Para manter essa habilidade, elas devem estar em um ambiente adequado, que forneça fatores celulares adequados. A equipe de Jian Hu sabia que as células-tronco do glioma se desenvolviam quando elas estavam em seus nichos, estruturas conhecidas como zona subventricular, devido à sua habilidade de se regenerar.
A equipe de pesquisa acredita que as células-tronco do glioma adquirem a capacidade de manutenção da sua linhagem, independentemente dos seus nichos, durante a invasão e migração celular. Usando ratos como modelos animais, eles estudaram a deleção de genes supressores importantes, incluindo QKI para ver qual correlação poderia existir.
“Nossa previsão dos estudos mostrou que o QKI é um dos genes do tumor supressor que pode, potencialmente, regular as células-tronco do câncer e nós confirmamos isso em nossa última pesquisa”, afirmou Jian Hu. O QKI teve impacto sobre uma atividade celular vital chamada endocitose, que é responsável pela diminuição dos receptores celulares, essenciais para a manutenção da capacidade de regeneração da célula-tronco. A perda de QKI pode enriquecer muito o nível desses receptores e, consequentemente, aprimorar a capacidade de regeneração, mesmo quando as células-tronco não estiverem em seus nichos. Assim como uma roupa espacial protege o astronauta dos perigos do espaço, uma deficiência do QKI cria um ambiente seguro para a célula-tronco do câncer transportada.
“Este estudo pode levar a oportunidades terapêuticas o para câncer, visando os mecanismos envolvidos na manutenção de células-tronco de câncer”, disse Jian Hu. “Embora a perda de QKI permita que as células-tronco do glioma se desenvolvam, também cria certas vulnerabilidades para as células cancerosas. Esperamos projetar novas terapias para atingí-las”.
Leia mais:
http://www.newswise.com/articles/study-reveals-new-information-on-how-brain-cancer-spreads
DOI: 10.1016/j.cell.2016.10.039
https://www.mdanderson.org/newsroom/2016/11/gene-deletion-allows.html
DOI:10.1038/ng.3711