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Depois de um ano cuidando de pacientes em meio a epidemia de Zika no Brasil, a neurologista pediátrica Vanessa van der Linden viu alguns dos piores casos. Ela foi uma das primeiras pesquisadoras a relacionar o vírus Zika à microcefalia, uma doença, agora bem conhecida, evidenciada por uma pequena cabeça disforme e, algumas vezes, uma testa “inclinada para trás”. Os bebês com essa “falha” também podem ter outros sintomas. Van der Linden presenciou crises de choro com duração de 24 horas, espasmos, irritabilidade extrema e dificuldade em engolir.

A microcefalia é apenas a ponta do iceberg do Zika, disse ela em um workshop organizado pelo Instituto Nacional de Saúde em North Bethesda, Maryland, nos Estados Unidos. Isto é algo que as autoridades de saúde pública têm alertado há meses. Agora, os cientistas começaram a descrever uma variedade de problemas que saúde associada à infecção do Zika vírus no útero: eles a estão chamando de síndrome Zika congênita.

Ainda assim, a total extensão do problema, incluindo a ameaça de mais doenças neurológicas “sutis” como dificuldades de aprendizagem e atrasos no desenvolvimento, permanece obscura, disse Peter Hotez, pediatra e microbiologista da Faculdade de Medicina Baylor em Houston.

“Essa é a grande incógnita: provavelmente há uma gama de doenças, similares ao autismo”, ele disse. E pode levar anos até que os cientistas consigam organizar e resolver tudo isso. É um problema que o Brasil está enfrentando agora e com o qual Porto Rico também começou a lidar.

Até meados de setembro, o território dos Estados Unidos já havia reportado 22.358 casos confirmados de Zika. Deste total, 1.871 eram gestantes. Uma ginecologista e obstetra do Centro de Estudos Materno-Infantil da Universidade de Porto Rico, Carmen Zorrilla, que examinou algumas dessas mulheres e seus bebês, enfatiza a importância do acompanhamento de todos esses bebês expostos ao Zika no útero – mesmo aqueles sem malformações aparentes. “Mesmo que eles nasçam ‘normais’, não significa que eles estarão bem”, disse ela.

Os cientistas ainda não sabem exatamente como o Zika danifica o cérebro, embora tenham algumas ideias. Um estudo recente descobriu que o vírus pode se infiltrar e matar tanto as células-tronco neuroepiteliais, que produzem todos os tipos de células do cérebro, quanto as células radiais gliais, que podem regenerar neurônios e guia-los até suas “posições” no cérebro.

Conforme o neurocientista Marco Onorati e seus colegas da Universidade de Yale, o Zika também dificulta a habilidade dessas células de se dividirem em novas células.

As células-tronco em funcionamento no cérebro fetal, eventualmente, dão origem a estruturas responsáveis pelo pensamento, pela memória e pelo aprendizado, levantando a uma infinidade de preocupações. “Esse é um vírus que bloqueia o desenvolvimento do cérebro fetal”, disse Hotez. “Isso é a pior coisa que você pode imaginar”. Ele aponta, também, que não apenas os fetos estão em risco. “Crianças em seus primeiros anos de vida também tem cérebros em crescimento e desenvolvimento. E se eles forem infectados pelo Zika? ”, disse ele. Essa não é uma pergunta fácil de responder, porém outras doenças podem auxiliar a encontrar essa resposta.

A malária, por exemplo, pode causar severos problemas neurológicos. Em crianças, uma condição chamada malária cerebral pode estar relacionada à distúrbios de saúde mental, como déficit de atenção, hiperatividade, comportamento antissocial e depressão.

Os pesquisadores também precisarão tomar cuidado com problemas a longo prazo em crianças nascidas que foram expostas ao Zika, mas que não apresentam sintomas evidentes, disse Sonja Rasmussen do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos. “Nós não queremos famílias excessivamente assustadas, mas nós reconhecemos a possibilidade de convulsões e atrasos no desenvolvimento”.

Uma vez que muitas pessoas não mostram sinais de infecção pelo Zika, se torna impossível mensurar o número de mulheres grávidas (e bebês) expostos ao vírus. Na América, esse número é exorbitante. Dezenas de milhares de crianças podem, eventualmente, sofrer de alguma doença neurológica ou psiquiátrica desencadeada pelo Zika.

Van der Linden não pode afirmar se os bebês com quem teve contato desenvolveram deficiências de aprendizado ou distúrbios psiquiátricos, ou ainda outros problemas cognitivos – a maioria dos pacientes dela tinham entre 9 meses e 1 ano de idade. Ela pretende acompanhar esses pacientes, e os bebês que aparentaram serem saudáveis ao nascer, por anos. “Nós precisamos de tempo para entender melhor a doença”, disse.

Hotez concorda: “Vai levar uma geração de neurologistas pediátricos e experts em doenças infecciosas para desvendar essa doença”.

 

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Créditos da imagem: T. Tibbits.

 

Fonte: https://www.sciencenews.org/article/concern-expands-over-zika-birth-defects

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