Novo estudo sugere que os músculos não têm memória a longo prazo para exercícios como corrida, ciclismo e natação. O velho ditado que diz “uma vez que você já esteve em forma, é mais fácil voltar a ficar em forma” pode ser um mito, pelo menos para atletas de resistência. O estudo foi publicado por pesquisadores suecos na PLOS Genetics.
“Nós realmente desafiamos a afirmação de que os músculos podem se lembrar de treinos anteriores”, disse Maléne Lindholm do Instituto Karolinska, em Estocolmo. Ainda que os músculos esqueçam os exercícios de resistência, outras partes do corpo podem lembrar e isso pode facilitar a readaptação ao treino para pessoas que uma vez já estiveram em forma.
Os treinos de resistência são incrivelmente benéficos para o corpo. Contrações musculares fracas, sofridas por um longo período de tempo – como em uma corrida de bicicleta – altera as proteínas, principalmente aquelas relacionadas ao metabolismo. Isso se traduz em um músculo mais eficiente energeticamente, que pode ajudar a evitar doenças como diabetes, doenças cardiovasculares e alguns cânceres. A questão é: quanto tempo duram essas melhoras?
Um trabalho anterior, realizado com camundongos, mostrou que músculos “se lembram” de treinamentos de força. Movimentos desses treinamentos, como flexões e agachamentos, tornam os músculos maiores e mais fortes, ao invés de mais eficientes. Os músculos aumentam conforme eles desenvolvem mais núcleos. O aumento desses núcleos leva a uma maior produção de proteínas que constituem as fibras musculares. As células mantêm seus núcleos extras mesmo após a parada de exercícios regulares para poder produzir proteínas com maior facilidade ao se retomar esses exercícios, disse o fisiologista Kristian Gundersen da Universidade de Oslo, na Noruega. Como os treinos de resistência tem efeitos diferentes nos músculos, os cientistas não tinham certeza se as células se lembrariam deles ou não.
Para responder essa questão, a equipe de Lindholm conduziu voluntários em um experimento de treino de resistência por 15 meses. Nos primeiros três meses, 23 voluntários treinaram 4 vezes por semana, chutando uma perna 60 vezes por minuto durante 45 minutos. Os pesquisadores fizeram, então, biópsias do músculo antes e depois desse período de três meses para ver como a atividade genética mudou com o treino. Especificamente, os cientistas procuravam mudanças no número de mRNA que cada gene estava produzindo. Os genes associados à produção de energia mostraram o maior grau de mudança nas atividades com o treino.
Em um acompanhamento, após os participantes terem parado o treinamento por 9 meses, os cientistas refizeram as biópsias nos músculos da coxa de 12 voluntários, mas não encontraram grande diferenças no padrão da atividade genética entre as pernas previamente treinadas e as pernas não treinadas. “Presumiu-se que os efeitos do treino foram perdidos”, disse Lindholm. Depois de outro período de três meses de treino, desta vez com ambas as pernas, os pesquisadores não viram diferenças entre a perna anteriormente treinada e a não-treinada.
Mesmo esse estudo não encontrando memória muscular para resistência – a maioria das evidências existentes é anedótica – ainda pode ser mais fácil para ex-atletas obter preparação para o triathlon, dizem os pesquisadores. O novo resultado não tem “influência na possível memória de outros sistemas de órgãos”, disse Gundersen. Por exemplo, o coração e o sistema cardiovascular poderiam se lembrar e, com mais facilidade, recuperar níveis saudáveis anteriores.
Mesmo dentro do tecido muscular, células imunes ou células-tronco também poderiam ter alguma memória não encontrada nesse estudo, disse a fisiologista molecular Monica Hubal da Universidade George Washington, em Washington D.C. Lindholm acrescentou que conexões bem treinadas entre os nervos e os músculos poderiam auxiliar ex-atletas a entrar em forma mais rápido do que pessoas que nunca se exercitaram antes. “Eles sabem como se exercitar, como se deveria sentir. O cérebro sabe exatamente como ativar seus músculos, e você não esquece como fazer isso”.
Fonte: https://www.sciencenews.org/article/endurance-training-leaves-no-memory-muscles