Um cientista sueco está manipulando geneticamente embriões humanos saudáveis, e ele provavelmente não está sozinho, dizem pesquisadores.
Cientistas chineses duas vezes relataram a “edição” de genes em embriões humanos que são incapazes de se desenvolverem em um bebê. O primeiro pesquisador a reconhecer publicamente a edição de genes em embriões humanos viáveis foi o biólogo Fredrik Lanner, do Instituto Karolinska em Estocolmo. Muitos cientistas dizem que, com certeza, há outros cientistas fazendo experimentos similares, porém longe dos olhos do público.
“Minha opinião é que há diferentes grupos aí fora fazendo esse tipo de trabalho, mas eles não abriram as portas dos seus laboratórios para o público”, disse o biólogo de células-tronco Paul Knoepfler da Universidade da Califórnia, em Davis.
Lanner permitiu a um repórter da Rádio Pública Nacional (RPN) dos Estados Unidos acesso exclusivo para ver os pesquisadores do laboratório injetarem os embriões humanos que “sobraram” de fertilizações in vitro com um poderoso novo manipulador genético chamado CRISPR/Cas9. Esse manipulador é uma “tesoura” molecular que consiste em uma proteína cortadora de DNA chamada Cas9 e em uma pequena parte de RNA que guia essa proteína ao gene que os cientistas desejam recortar. Essa tecnologia permite aos pesquisadores realizar corte precisos de DNA, algo que vinha sendo bastante complicado de se fazer em humanos.
A facilidade e precisão do CRISPR tornou a perspectiva da edição de embriões humanos quase inevitável, diz Chad Cowan, biólogo de células-tronco da Universidade Harvard. “Agora que se pode fazer isso e atrair uma atenção considerável, é como luz para mariposas noturnas. Haverá pessoas que acharão irresistível fazer isso, sendo cientificamente justificável ou não”.
Esses experimentos certamente estão acontecendo por baixo dos panos nos Estados Unidos, China e outros países. Em fevereiro, o Reino Unido deu à bióloga Kathy Niakan, do Instituto Francis Crick, em Londres, uma licença para realizar a manipulação genética em embriões humanos. Os experimentos ainda não começaram e estão sob novas análises para garantir que Niakan tenha um argumento justo e completamente ético, disse Cowan.
A Suécia e outros países exigem uma justificativa cientifica adequada e uma supervisão ética para fazer esse tipo de pesquisa, mas os pesquisadores, muitas vezes, são relutantes em falar com jornalistas antes que seus trabalhos tenham sido publicados em revistas cientificas. O geneticista de Harvard, George Church, afirmou por e-mail ao Science News que os experimentos de Lanner foram os primeiros a serem levados à público, mas que não representam a primeira vez em que esse tipo de experimento com embriões humanos foi feito. Há um movimento crescente para engajar e informar o público antes de realizar tais pesquisas controversas, especialmente os experimentos envolvendo o CRISPR/Cas9, disse Church.
Lanner está conduzindo uma pesquisa básica para entender mais sobre o desenvolvimento de embriões no intuito de elaborar novos tratamentos para infertilidade, prevenir abortos e aprender mais sobre as células-tronco, de acordo com a RPN. Os embriões alterados seriam descartados após 14 dias crescendo em uma placa de laboratório e não seriam implantadas no útero de uma mulher para conceber uma gravidez. Tal trabalho pode levar a ensaios que podem ter grande impacto clinico e, ironicamente, não requerer manipulação de embriões, disse Church.
Ano passado, uma conferência internacional sobre manipulação genética recomendou que tais pesquisas tão fundamentais poderiam e deveriam ser feitas, dada uma justificativa científica apropriada e supervisão ética. Muitas pessoas, entretanto, se preocupam que essas pesquisas, especialmente em embriões viáveis, abram as portas para a criação de bebes projetados e alterem para sempre a herança genética de humanos.
Fonte: https://www.sciencenews.org/article/new-era-human-embryo-gene-editing-begins