Pela primeira vez na região Sul, uma célula madura foi induzida a se tornar pluripotente através de uma série de procedimentos laboratoriais, ou seja, a partir de uma célula somática (2n) já constituída, foi obtida uma célula-tronco. Esse procedimento é essencial para o futuro das pesquisas na área, já que foge da discussão ética-religiosa a qual cerca as células-tronco embrionárias, além de evitar o risco de rejeição do corpo à nova célula por carregar o mesmo material genético do transplantado.
Realizado no Instituto de pesquisa com células-tronco (IPCT) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o procedimento de indução consiste em coletar qualquer célula somática do corpo (com 46 cromossomos) e transformá-la em uma célula pluripotente, normalmente chamada de iPS cell (célula-tronco pluripotente induzida). Essa célula é idêntica a uma célula-tronco embrionária na sua capacidade. A técnica, desenvolvida no início deste século, tem diferentes métodos de reprodução. No Instituto, foi utilizado o procedimento não-viral. Primeiramente, uma célula da polpa de um dente de leite foi isolada e submetida a um processo de digestão enzimática, onde a célula é “purificada” e depois reprogramadas para adquirir características de células-tronco embrionárias . Após este passo, são realizados inúmeros testes no laboratório para confirmar o sucesso da reprogramação.
Coordenadora do projeto, a Professora Patricia Pranke ressalta as possibilidades geradas a partir desse gênero de célula pluripotente. “Ao se trabalhar com células pluripotentes induzidas, não precisamos lidar com a probabilidade de rejeição do organismo ou até mesmo com as discussões éticas que envolvem as células-tronco embrionárias, o que é muito significativo para o progresso do campo de pesquisa”. O pós-doc Pedro Chagastelles, que realizou o procedimento no IPCT, falou sobre o resultado obtido. “São poucos os grupos no Brasil que realizam este procedimento. No momento, trabalhamos na pesquisa básica laboratorial, mas o objetivo final é o futuro resultado em pacientes”, afirma o pesquisador. No Japão, o primeiro teste clínico utilizando células derivadas de iPS já está sendo realizado. No mundo, porém, ainda são realizados testes para confirmar a potencialidade dessas células e suas capacidades a longo prazo.
O IPCT começou o procedimento em junho deste ano e agora já tem a primeira cultura de células pluripotentes induzidas. A intenção agora é que essa linhagem seja utilizada em estudos básicos e pré-clínicos pelo Instituto.